terça-feira, 3 de março de 2009

Viagem ao interior de um travesseiro - Chen-Tsi-tsi - Parte 2/3

Continuação da primeira parte...

Era um travesseiro de porcelana, pintado de azul. Mal o jovem Lu pousou a cabeça nele, viu, distintamente, a cavidade lateral alargar-se e fazer-se cada vez maior. O jovem, erguendo-se, por ela entrou sem dificuldade, e achou-se, da maneira mais simples do mundo, de volta à sua própria casa.

Meses depois, desposou uma jovem muito bela, da família Tsoei, de Tsing-ho. Entrementes, sua fortuna crescia rapidamente e ele começava a sentir o coração mais aliviado. A partir de então, passou a ter vestes e carros novos, exatamente como desejara.

No ano seguinte, apresentou-se aos concursos oficiais e foi aprovado. Pôde, enfim, pôr de lado suas roupas de plebeu e ostentar a insígnia de funcionário. Depois, candidatou-se aos exames da Corte e foi neles igualmente bem sucedido. Nomeado subprefeito de Wei-nan, era logo depois promovido a censor imperial. Graças ao seu novo posto de oficial de ordenança de monarca, passou à frente dos mais altos dignitários. Três anos mais tarde, foi de novo enviado à província com o título de prefeito. Ávido de glórias, mandou escavar um canal na província de Chansi, a fim de facilitar a navegação. A população, beneficiada, mandou erigir um monumento em honra do prefeito.

Depois de ter sido prefeito e inspetor-geral de diversas províncias, foi finalmente nomeado prefeito da capital. Nesse ano, o imperador estava em dificuldades com as tribos insubmissas do oeste. O soberano, que era ambicioso, quis aproveitar-se da oportunidade para alargar seus domínios. Os rebeldes, porém, avançavam e acabaram por ocupar uma importante cidade, assassinando-lhe o governador. O monarca, que andava a procura de um homem de talento para comandar suas tropas, resolveu nomear Lu governador militar da região ameaçada. Lu conseguiu, não sem dificuldades, desbaratar os invasores. Depois mandou edificar, nos pontos estratégicos, três grandes cidades fortificadas. A população da fronteira, liberta do pesadelo da invasão, ergueu uma estela de mármore sobre o monte Kiu-yen, em honra do vencedor.

De volta à Corte, Lu foi cumulado de favores imperiais que faziam empalidecer a inveja dos seus colegas. Gozava ele de alto conceito perante a opinião pública e era benquisto pelo povo. Dentre os que se consideravam mais prejudicados pelos êxitos de Lu, estava o primeiro-ministro. Este não descansou enquanto não deitou a perder seu impertinente rival. Conseguiu, por meio de intrigas e calúnias, comprometer-lhe o prestígio. O efeito dessa campanha desmoralizadora não tardou a fazer-se sentir. Lu foi destituído de seu alto posto e enviado para uma região distante, no cargo de simples prefeito.

Três anos depois, voltava à Corte para ali desempenhar funções de secretário permanente do Imperador. Mais tarde, foram-lhe confiados graves assuntos de Estado, passando ele a exercer funções de membro do Conselho Imperial. Viu-se, assim, no centro do poder, durante dez anos. O país prosperava e Lu gozava da reputação de bom ministro.

Quis a fatalidade que tais êxitos provocassem de novo o ciúme dos invejosos. A todo preço, procuravam os confrades de Lu perdê-lo, dessa vez definitivamente. Acusaram-no de conivência com um general rebelde, cuja guarnição se havia sublevado na região fronteiriça, O Imperador assinou um mandato de prisão e os oficiais e guardas da prefeitura conduziram Lu para o cárcere, como se fosse um reles criminoso.


Consternado, humilhado, Lu pressentia o pior. Ao partir, chorou amaramente diante da esposa:

- Eu tinha um teto nos campos de Chang-tong, e possuía terras férteis, mais do que suficientes para viver. Por que não me contentei com isso? Eis agora a que ponto cheguei. Quem me dera poder novamente vestir as roupas grosseiras de camponês e poder passear alegremente! Ai de mim, que tal nunca mais me será consentido...

Dito isso, Lu puxou da espada e tentou cortar o pescoço, mas a mulher deteve o braço.


Fim da segunda parte

6 comentários:

Gustavo Martinho disse...

Nem sempre a ganância é algo ruim,
neste caso acho que foi pura sorte(ou falta dela!).

mas adorei o jeito que você escreve!mesmo!
sem palavras complicadas, com um português impecável.

espero pela continuação, excitante!
muito bom o blog

Emerson Reis, M.D disse...

Bem, além do português impecável tem muita qualidade para prender o leitor. Eu estou curiosíssimo para ver a continuação. É realmente aquela coisa da inveja. Os árabes (alguns, apenas, claro) têm palácios suntuosos mas que, externamente, são apenas aquelas casas brancas iguais a de todos. Não dá pra distinguir por fora quem é rico ou quem é pobre. E se você perguntar por que que fazem isso eles respondem: "para não ofender o vizinho". Beijo Grande

http://www.mersonreis.blogspot.com

ps - atualiza o nome do meu blog na parceria - mudei para Feira de Santana-Bahia, ah, e foi ontem mesmo que fiz isso, hehehe

Simply disse...

Uau, uau, uau!!!
Aqui supimpa de legal...
Demais Carol...
Bjs

Moça do Fio disse...

É inerente ao ser humano a vontade de querer sempre mais. No entanto, devemos ter cuidado onde isso vai parar.

Estou ansiosa pelo final ;-))

Abraços, menina.

Simply disse...

Oia eu di novo, minha flor...
To passando pra mode dize que indiquei tu e seu blog pro selo la do blog que eu tenho.
Entonce, beijo

grupo gauche disse...

fiquei interessada na continuação parece muito bom!!! um abraço pra ti