quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O que eu sinto - Caroline Mendes

O que eu sinto


Não perderei o que eu sinto:

É algo ainda não desvendado

É mais forte que o amor,

Por mim foi criado.


O amor é mutante, fraco,

Mas o que eu sinto...

Oh, isso não, meu bem.

Veja que eu não minto:


Mentirosa nunca foi

A voz de meu ser.

Passarão anos e anos

E o que sinto não perderei.


Caroline Mendes


"Sunrise", por Claude Monet



terça-feira, 8 de setembro de 2009

Equilíbrio - Caroline Mendes

Equilíbrio


Há uma balança d'ouro

Que uso para pesar

E ver o que é importante,

O que é pesado, apesar


De minha pequena balança

Às vezes confundir-se 

E pôr importância

Em coisas estranhas


Mas ela não se cansa

Mesmo a iludir-me

E nessa discordância

Fica nessa façanha.


Mas eu, aqui, espero

Que um dia se concerte

Esta que se acanha,

Mas sempre me acompanha.


Caroline Mendes


Pintura de Réne Magritte






Desejos - Caroline Mendes

Desejos


Eu quero escrever um poema único

Intenso, bonito, raro de ver.

Eu quero inovar com movimento púrico

Como qualquer poeta gostaria de fazer.


Eu quero estar entre os mais conhecidos,

Ou, quem sabe, ser só um pouquinho.

Mas eu quero mesmo é deixar no mundo

Uma marca augusta, aberta e profunda.


Eu quero tanto, e tanto eu faço

Sei que sonho, que me iludo.

Mas que mal há em pensar?


Não quero nada, quero tudo,

E serei essa constante mudança

Até o fim de meu mundo.


Caroline Mendes


Réne Magritte





domingo, 6 de setembro de 2009

Jaula - Caroline Mendes

Jaula


Aquilo que me prende:

Isto é uma jaula.

É o que me mata

E não me compreende.


Esse querer mudar

O que já aconteceu

É tolice, bem se vê

O passado é morto, já.


Mas esta jaula escura

Me sufoca, me aperta.

Já não há mais cura


Eu não me liberto

Não há chave ou fechadura

Que me livre deste espectro.


Caroline Mendes


"Therapeute," Rene Magritte, 1941.



sábado, 5 de setembro de 2009

Livro - Caroline Mendes

Livro


I


Eu sou um livro lacrado,

Tenho até um cadeado.

Só tu tens minha chave

E nem assim tens passe

 

Para todos os capítulos,

Pois tenho códigos frígidos

Que te deixam confuso

Como em primeira viagem

Um jovem marujo.

 

Mas tu és um bom leitor

Pois me compreendes bem.

Tens aguçada atenção

Como ninguém tem.


II


Tu és um livro estranho

Que tem a capa escura

De um tom castanho

E de áspera textura.


Tens uns códigos estranhos

Que não consigo decifrar.

Mas te conheço um pouco

Pelo que me deixas adentrar.


Li uns capítulos únicos

Que nunca ninguém leu.

Sou a única leitora

Desde livro, que se perdeu.


Caroline Mendes


"Young Man Reading by Candle Light", por Matthias Stomer




Flor de Manjericão - Caroline Mendes

Flor de Manjericão

 

Assim que te vi,

Segurei-te nas mãos.

Alegre eu fiquei,

Pus-me a sorrir.

 

Coloquei-te na janela

E senti uma brisa

Morna, de verão,

Gostosa como flanela.

 

Teu aroma eu senti:

Era cheiro de verde,

Cheiro de terra,

De natureza, enfim!

 

Vi tuas poucas flores,

Sem muitas cores

Apenas o branco

Me lembrando d’amores.


Caroline Mendes

imagem retirada do site: aqui




sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Pintura - Caroline Mendes

Pintura

 

Pintei um sol negro,

Um céu vermelho.

Senti um desvelo:

Em tinta meu dedo.

 

As cores no papel,

O desenho se formando:

Um barco afundando

E o vermelho no céu.

 

O mar, a se mover.

E também um cachorro

Que, numa pincelada,

Nasceu sem querer.

 

Pintei um morro

Atrás do mar

Verde ele era

E parei de pintar.


Caroline Mendes






Dora - Caroline Mendes

Dora


Dora, em sua tristeza,

Não sabia o que fazer

Tamanha era sua dor

Por não saber viver.

 

Chegou-se junto ao precipício

No outro lado, apenas mar.

Queria um novo início,

Queria também voar.

 

Pensou, e como pensou!

Sua idéia não mudou.

Seu corpo tocou o céu,

Seu corpo desceu ao mar.


Caroline Mendes


"La Memoire", por Réne Magritte.





quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Papel - Caroline Mendes

Papel

 

Eu tenho um papel em branco

E não sei o que fazer.

Será que amasso, jogo fora?

Ou faço uma pintura, com prazer?

 

Posso fazer uma dobradura

E criar algo novo

Sei que dá um trabalho,

Mas quando pronto, é um gosto!

 

Posso escrever, deixar marcas

Que poderão ficar velhas.

(Até viver quando eu morta estiver)

Talvez seja uma boa idéia.

 

Mas são tantas opções

Que fiquei insegura

Farei de tudo um pouco

Antes que eu morra na brancura!


Caroline Mendes








Ao prazer - Caroline Mendes

Ao prazer

 

Tu és um sentimento banalizado

Que, associado a coisas ruins

Torna-se dispensável

E até mesmo rebaixado.

 

Mas eu usufruo de ti

E assim tenho dias bons

Não me envergonho de sorrir

Ter-te me é um dom.

 

Eu apenas sinto pena

Daqueles que esquecem de ti.

E vivem, sem viver

Porque nunca tiveram a ti.


Caroline Mendes


quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A velhinha - Caroline Mendes

A velhinha

 

Para cima, para baixo,

A agulha vai levando

A linha, e transformando

Um novelo em toalha.

 

Enquanto isso, a velhinha

Lentamente faz

Seu trabalho, tão sem paz,

Chora e ri, suspira.

 

Está cansada da velhice

Já não tem mais forças

Tem saudades da meninice,

 

Não é mais uma moça!

Deixa a agulha cair,

E jaz ali, sem forças.


Caroline Mendes


Pintura de Van Gogh, 'An Old Woman from Arles', 1888




terça-feira, 1 de setembro de 2009

Quebra Cabeça - Caroline Mendes

Quebra cabeça

I

O meu quebra cabeça
Veio com um defeito
Sempre falta uma peça,
Nunca há jeito!

Se some a peça do céu,
No outro dia, falta a do mar.
Ou a do carrossel...
Não há como terminar!

E a peça que desaparece
Quando acho, outra se perde
E assim o jogo permanece

Sempre inacabado
Mas é o único que tenho,
Vou montando bem calado.

II

Eu não posso ignorar
Quando isto me acontece:
As peças movem-se, loucas.
E vão para onde bem querem.

Sei que posso controlá-las
Mas às vezes é difícil.
Penso em desistir
E guardar todas elas.

Mas o pior é quando
Tudo parece completo
E é então que vejo
Que há um erro no projeto!

III

Mas afinal de contas
Estou sendo pessimista
Pois há de ponta a ponta
Peças entrelaçadas, amigas.

É preciso saber aceitar
Que apareçam as lacunas
E também saber amar
As peças que já estão juntas.


Caroline Mendes

Dodô - Caroline Mendes

Dodô

Minha querida ave
Tu não me conheces,
Pois que já morrestes
Nas mãos dos portugueses.

És o Dodô, que sem voo
Vivia a festejar.
Não tinha inimigos
Ou com quem brigar.

De paz, foram muitos anos
Que não havia como enfrentar
Os perigos que então vieram:

Tu não soubeste como lutar!
Tua vida foi tirada
E agora bico e ossos

São sua herança guardada!


Desenho de John Tenniel, ilustrador do livro "Alice no país das maravilhas".

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Uma frase...

"Todo homem é incendiário aos vinte anos e bombeiro aos quarenta".

Retirado do livro "O Encontro Marcado", escrito por Fernando Sabino.

sábado, 4 de julho de 2009

Estações - Caroline Mendes

Estações

As flores de setembro
Desabrocham num instante
Crescem em ritmo constante
Até a morte, em dezembro!

É a primavera da vida
Que passa tão depressa.
Tão logo chega - querida,
Vai-se embora - com pressa.

É esta a fase encantada
Que nada espera; tudo passa.
E quando então, vai-se embora,
Percebemos que passou a hora:

De fazer escolhas, encontros,
Amores e até desencontros.
De viver, sonhar, crescer,
E também endoidecer!

Mas enfim vem o verão.
Flores murcham, e em vão
Tentam acordar do sono,
Que vem com o outono.

- Que é enterrado junto,
No inverno, com a neve
Num lugar bem escuro,
Sem luz, fogo e febre.

Caroline Mendes