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terça-feira, 22 de setembro de 2009

Despedida - Rubem Braga

Despedida


E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.


Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.


Rubem Braga


Extraído do livro "A Traição das Elegantes", Editora Sabiá – Rio de Janeiro, 1967.


terça-feira, 23 de junho de 2009

Aula de Biologia

Aula de Biologia

Ainda me lembro daquela tarde chuvosa. Estávamos nós, simples estudantes, tentando absorver todo aquele conteúdo que nos era passado naquela aula de biologia. Algum aluno propôs que visitássemos o laboratório de química, lá tinham órgãos preservados que poderiam nos ajudar a compreender melhor sobre fisiologia humana.

O professor concordou com a ideia, e foi buscar a chave do laboratório. Nós entramos e logo fomos vendo o que havia naqueles vidros cheios de formol. Me lembro de um que havia um feto humano, bem pequeno. Pelo tamanho, disse o professor, deveria ter poucas semanas.

O professor calçou as luvas e abriu o vidro em que estava contido um cérebro humano. Este estava cortado transversalmente. O professor explicou suas partes e algumas funções. Depois o professor fez o mesmo com um coração e um estômago. Nós estávamos compenetrados no assunto, era tudo muito interessante.

Finalmente, o professor escolheu nos mostrar os rins. Ele deixou um de lado e nos apresentou outro. Mas, de repente, o rim deslizou na mão do professor e acabou por cair no chão. Ficamos naquela tensão e logo o professor salvou o órgão fugido. Todos começaram a rir.

Isso faz muitos anos, mas agora que me lembrei desse dia, acabei refletindo uma coisa. Aquele rim era de alguém. Como essa pessoa se sentiria se soubesse que estavam brincando com o rim dela? Bem, o que ela acharia eu não sei. Mas se o rim fosse meu, eu não gostaria.

Caroline Mendes.



sábado, 16 de maio de 2009

História Circular - F. J. Alves

História Circular


"Quantos lados tem um círculo? Dois: o de dentro e o de fora".

Ele caminhava meio confuso, meio incerto do que estava realmente fazendo, bebericando uns goles de água. Alguma coisa o incomodava, lhe dando uma sensação de estranheza, mas ele não sabia definir o que poderia ser. Sua única certeza era dita pelo seu relógio digital barato: estava na hora de começar a aula. Era um pouco mais de 8h da manhã.

Lançou o copinho descartável no lixo antes de entrar na sala de aula. Entrou um pouco atrasado: 2 minutos. Encontrou seus alunos como de costume, cumprimentou a turma com um "Bom dia" corriqueiro e sem pretensão de ser respondido. Alguns alunos responderam, outros ficaram indiferentes e alguns outros continuaram meio sonolentos.

Iniciou a aula, não sentiu necessidade de fazer a chamada da turma, sabia que todos estavam lá. Começou relembrando o que tinha sido visto na aula passada. Por um instante pensou que estivesse fazendo isso pela milésima vez. Talvez fosse apenas o cançaso ou talvez fosse melhor mudar um pouco de área, ir lecionar em outra escola, outros conteúdos. Bom, agora não podia ficar parado. Continuou a aula, meio monótona, meio sem graça. Uma pitada de humor aqui ou ali para tentar despertar os mais sonolentos. Como retribuição, alguns sorrisos meio tímidos.

Ao final de uma hora de aula. Fez uma pausa. Relembrou o que estavam estudando, tentou mostrar outros exemplos para reforçar o conteúdo. Novamente, a sensação de estar se repetindo surgiu. Balançou a cabeça de leve, tentando afastar essa ideia tola e prosseguiu com a aula.

Ao final da aula, incluiu uma pequena lista de exercícios e um trabalho para entregar na semana seguinte. Definitivamente, alguma coisa não estava certa, pois agora ele se lembrava nitidamente de já ter passado essas mesmas tarefas. Mas não poderia ser, só havia essa turma com esse conteúdo específico.

Despediu-se apressadamente dos alunos. Teria apenas 10 minutos antes da próxima aula. Ao sair da sala de aula, deparou-se um homem vagamente familiar. Sentiu que deveria conversar com esse estranho. Seria algum pai de aluno? Um novo professor?

Para a surpresa do professor, foi o estranho que falou primeiro: "Aqui estamos! E sempre o mesmo assunto, não é?" O professor conseguiu verbalizar apenas um "não entendo!". O estranho foi enigmático: "Estamos sobre a borda de um círculo. O nosso caminho nos leva ao ponto de partida. Sempre que iniciamos um novo começo, esquecemos o princípio e tudo aquilo que já realizamos. Somos obrigados a repetir tudo o fizemos no ciclo anterior!". O professor tentou, em vão, arrumar as ideias na cabeça. "O que esse estranho queria dizer com tudo isso?", pensou. Antes de chegar a uma solução olhou para o relógio. Agora tinha apenas 5 minutos antes de começar a próxima aula. Sentiu sede. Olhou rapidamente para o estranho, falou: "Tenho que ir, depois conversamos". O estranho respondeu simplesmente, como se já esperasse por esta resposta: "Eu sei". A expressão geral do estranho era de calma aparente e uma certa impaciência latente.

O professor deixou o estranho e seu enigmas. Era necessário apagar da sua mente aquela conversa desprovida de sentido. Não queria que aquilo pertubasse sua próxima aula. Foi à sala dos professores, onde um grande relógio de parede decretava: são 8h! Pegou um copo descartável com água e caminhou, meio confuso em direção a sala de aula.

F. J. Alves
http://alfanumericus.blogspot.com/

quarta-feira, 4 de março de 2009

Viagem ao interior de um travesseiro - Chen-Tsi-tsi - Parte 3/3

Continuação da segunda parte...


Os demais acusados de conspiração foram condenados à morte e executados. Graças a uma intriga de eunucos, Lu logrou escapar à pena capital, mas foi exilado para Huantcheú.

Passaram-se muitos anos. A inocência de Lu foi finalmente provada diante do Imperador. Este mandou restituir àquele o cargo de secretário de Estado, juntamente com o título de Duque de Yen-ru. Daí por diante, o soberano passou a cumulá-lo de favores excepcionais e ele nunca mais conheceu reveses.

Lu tinha conco filhos. Todos eram dotados de grande talento e ocupavam altas funções no governo. A felicidade do velho Lu era ainda aumentada pela presença de uma dezena de netinhos.

Estava ele, pois, no apogeu da prosperidade e das honras; sua carreira de homem de Estado ia pra mais de conquenta anos. Por duas vezes, no longo trajeto, conhecera o exílio e a mais tenebrosa desgraça. Mas quis a sorte que, depois de cada queda, encontrasse meios de levantar-se e de reaparecer no cenário governamental.

Fatigado pela idade, solicitava ao imperador, com insistência, a reforma, mas em vão. Acabou por cair doente. Médicos celebres, remédios preciosos, nada foi negligenciado para tentar sua cura. Apesar disso, a morte aproximava-se rapidamente. Na véspera do trespasse, Lu endereçou uma mensagem de adeus ao Imperador, vazada nestes termos:

"Eu, vosso humilde servidor, era, de origem, um simples estudante de Changton, não tendo outra ocupação senão o trabalho nos campos. Quis o acaso que eu pudesse aproveitar-me dos altos destinos do Império e ascendesse à hierarquia dos magistrados. O receio de mostrar-me indigno de vossa bondade celeste, ou de ser inútil ao vosso reinado tão cheio de sabedoria, não me consentiu gozar qualquer repouso no decurso de toda a minha vida. Tal pensamento me atormentou dia e noite. Eis-me agora, no limiar da morte. Amanhã, as horas e os diascessarão, para mim, seu curso. Octogenário, por que deveria eu lamentar a sorte destes nervos e ossos desgastados até a última fibra? Mas, contra minha vontade, tenho que deixar para sempre vosso grande reino com um sentimento de infinita devoção e de reconhecimento."

No dia seguinte, o Imperador lhe concedeu a seguinte resposta:

"Dotado de virtudes incomparáveis, fostes-me um colaborador de primeira ordem. Graças ao vosso devotamento, meu reino floresceu. Até há poucos instantes, julguei que vossa doença fosse passageira. Quem haveria de crer que fosse ter tão graves consequencias? Exprimo-vos minha compunção e ordeno ao general da cavalaria imperial, Kao, que me represente junto à vossa cabeceira. Cuidai bem de vós mesmo por amor de mim, vosso amo, e fazei por nutrir a esperança de um pronto estabelecimento!"

Nesta mesma tarde, Lu expirou.


O jovem Lu acordou. Espreguiçou-se. Olhou em torno de si e constatou que ainda se encontrava na pousada, estendido sobre a esteira. A seu lado, o velho taoísta continuava sentado, taciturno e imóvel. O milho do estalajadeiro não estava de todo assado. O cenário não mudara.

Por longo tempo, o jovem permaneceu pasmado, inconsolável. Depois, agradeceu ao taoísta, dizendo-lhe:

- Tudo quanto diz respeito ao caminho que leva à honra ou à humilhação, aos ensejos de prosperidade e miséria, às razões de êxitos e de reveses - acabo eu de experimentar, segundo creio. Compreendo tudo agora. Pois conseguistes, mestre, dissipar-me as ilusões. Vossa lição será para sempre lembrada.

Saudou muitas vezes o Pai Li, encostando a fronte no solo. Depois, foi-se embora.


(Tradução de Alda de Carvalho Ângelo, e adaptação de Caroline Mendes.)

terça-feira, 3 de março de 2009

Viagem ao interior de um travesseiro - Chen-Tsi-tsi - Parte 2/3

Continuação da primeira parte...

Era um travesseiro de porcelana, pintado de azul. Mal o jovem Lu pousou a cabeça nele, viu, distintamente, a cavidade lateral alargar-se e fazer-se cada vez maior. O jovem, erguendo-se, por ela entrou sem dificuldade, e achou-se, da maneira mais simples do mundo, de volta à sua própria casa.

Meses depois, desposou uma jovem muito bela, da família Tsoei, de Tsing-ho. Entrementes, sua fortuna crescia rapidamente e ele começava a sentir o coração mais aliviado. A partir de então, passou a ter vestes e carros novos, exatamente como desejara.

No ano seguinte, apresentou-se aos concursos oficiais e foi aprovado. Pôde, enfim, pôr de lado suas roupas de plebeu e ostentar a insígnia de funcionário. Depois, candidatou-se aos exames da Corte e foi neles igualmente bem sucedido. Nomeado subprefeito de Wei-nan, era logo depois promovido a censor imperial. Graças ao seu novo posto de oficial de ordenança de monarca, passou à frente dos mais altos dignitários. Três anos mais tarde, foi de novo enviado à província com o título de prefeito. Ávido de glórias, mandou escavar um canal na província de Chansi, a fim de facilitar a navegação. A população, beneficiada, mandou erigir um monumento em honra do prefeito.

Depois de ter sido prefeito e inspetor-geral de diversas províncias, foi finalmente nomeado prefeito da capital. Nesse ano, o imperador estava em dificuldades com as tribos insubmissas do oeste. O soberano, que era ambicioso, quis aproveitar-se da oportunidade para alargar seus domínios. Os rebeldes, porém, avançavam e acabaram por ocupar uma importante cidade, assassinando-lhe o governador. O monarca, que andava a procura de um homem de talento para comandar suas tropas, resolveu nomear Lu governador militar da região ameaçada. Lu conseguiu, não sem dificuldades, desbaratar os invasores. Depois mandou edificar, nos pontos estratégicos, três grandes cidades fortificadas. A população da fronteira, liberta do pesadelo da invasão, ergueu uma estela de mármore sobre o monte Kiu-yen, em honra do vencedor.

De volta à Corte, Lu foi cumulado de favores imperiais que faziam empalidecer a inveja dos seus colegas. Gozava ele de alto conceito perante a opinião pública e era benquisto pelo povo. Dentre os que se consideravam mais prejudicados pelos êxitos de Lu, estava o primeiro-ministro. Este não descansou enquanto não deitou a perder seu impertinente rival. Conseguiu, por meio de intrigas e calúnias, comprometer-lhe o prestígio. O efeito dessa campanha desmoralizadora não tardou a fazer-se sentir. Lu foi destituído de seu alto posto e enviado para uma região distante, no cargo de simples prefeito.

Três anos depois, voltava à Corte para ali desempenhar funções de secretário permanente do Imperador. Mais tarde, foram-lhe confiados graves assuntos de Estado, passando ele a exercer funções de membro do Conselho Imperial. Viu-se, assim, no centro do poder, durante dez anos. O país prosperava e Lu gozava da reputação de bom ministro.

Quis a fatalidade que tais êxitos provocassem de novo o ciúme dos invejosos. A todo preço, procuravam os confrades de Lu perdê-lo, dessa vez definitivamente. Acusaram-no de conivência com um general rebelde, cuja guarnição se havia sublevado na região fronteiriça, O Imperador assinou um mandato de prisão e os oficiais e guardas da prefeitura conduziram Lu para o cárcere, como se fosse um reles criminoso.


Consternado, humilhado, Lu pressentia o pior. Ao partir, chorou amaramente diante da esposa:

- Eu tinha um teto nos campos de Chang-tong, e possuía terras férteis, mais do que suficientes para viver. Por que não me contentei com isso? Eis agora a que ponto cheguei. Quem me dera poder novamente vestir as roupas grosseiras de camponês e poder passear alegremente! Ai de mim, que tal nunca mais me será consentido...

Dito isso, Lu puxou da espada e tentou cortar o pescoço, mas a mulher deteve o braço.


Fim da segunda parte

domingo, 1 de março de 2009

Viagem ao interior de um travesseiro - Chen-Tsi-tsi - Parte 1/3

Tenho um livro em casa que se chama "Maravilhas do Conto Chinês". Eu o comprei num sebo, e não existe mais para vender, infelizmente, como tantos livros bons. Mas há um conto que me chamou muito a atenção, e não o encontrei na internet. Por isso queria divulgá-lo. Como ainda estou digitando, vou separá-lo em partes para não ficar cansativo e não ficar muito texto para uma postagem só. Epero que gostem! =D

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Viagem ao interior de um travesseiro

Chen-Tsi-Tsi

No sétimo ano da época Kiai-yuan (712-741), um taoísta, conhecido como Pai Li, errava pela região de Han-tang. Certo dia, em que tivera de se deter numa estalagem de muda, o monge, enquanto esperava, tirou o boné, desapertou o cinto e sentou-se no chão, apoiando o peito contra o saco de viagem.

Nesse instante, entrou na estalagem um jovem vestido com trajes simples de camponês. Chamava-se Lu. De volta dos campos, detivera-se, como de costume, na pousada. Sentou-se na mesma esteira do taoísta e entre ambos logo se entabulou agradável palestra.

Passou-se algum tempo. Olhando tristemente para seu vestuário velho e coçado, o jovem soltou um longo suspiro:

- Dizer que sou homem de bem e que não tenho sorte na vida! Como sou desgraçado!

O velho taoísta ficou surpreso:

- Vendo-vos, ninguém diria que sofreis de algum mal! Por que tão súbito suspiro?

-Arrasto-me pela vida, eis tudo. Não tenho qualquer alegria – Retrucou o jovem, obstinadamente.

- Se isso não é alegria, que mais esperais para ser feliz?

- Um homem de cultura – prosseguiu o jovem Lu, com gravidade – Deve levar a cabo grandes empresas e granjear fama. Deve chegar a general-comandante de um exército expedicionário, ou a primeiro-ministro do Império. É necessário que logre fazer com que prosperem sua família quanto seus bens. Só então poderá falar em alegrias, em abastanças!

Ao cabo de uma pausa, prosseguiu:

- Jovem ainda, apliquei-me ao estudo com ardor e inteligência. Em muitos sentidos, sou homem bem dotado. Acreditei, outrora, poder atingir, sem dificuldade, altas posições na magistratura. Mas, como vedes, aqui estou, homem feito e labutando ingloriamente nos campos. Não é lamentável?

Seguiu-se longo silêncio. O jovem Lu parecia estar prostrado de fadiga e desejoso de cochilar um pouco. Entrementes, o estalajadeiro, absorto, ocupava-se em assar milho na estufa. O velho monge, tirando de sua bagagem um travesseiro, estendeu-o ao jovem:

- Descansai neste travesseiro e alcançareis honrarias e fortuna. À vontade.


Fim da primeira parte.