sábado, 5 de setembro de 2009

Livro - Caroline Mendes

Livro


I


Eu sou um livro lacrado,

Tenho até um cadeado.

Só tu tens minha chave

E nem assim tens passe

 

Para todos os capítulos,

Pois tenho códigos frígidos

Que te deixam confuso

Como em primeira viagem

Um jovem marujo.

 

Mas tu és um bom leitor

Pois me compreendes bem.

Tens aguçada atenção

Como ninguém tem.


II


Tu és um livro estranho

Que tem a capa escura

De um tom castanho

E de áspera textura.


Tens uns códigos estranhos

Que não consigo decifrar.

Mas te conheço um pouco

Pelo que me deixas adentrar.


Li uns capítulos únicos

Que nunca ninguém leu.

Sou a única leitora

Desde livro, que se perdeu.


Caroline Mendes


"Young Man Reading by Candle Light", por Matthias Stomer




Flor de Manjericão - Caroline Mendes

Flor de Manjericão

 

Assim que te vi,

Segurei-te nas mãos.

Alegre eu fiquei,

Pus-me a sorrir.

 

Coloquei-te na janela

E senti uma brisa

Morna, de verão,

Gostosa como flanela.

 

Teu aroma eu senti:

Era cheiro de verde,

Cheiro de terra,

De natureza, enfim!

 

Vi tuas poucas flores,

Sem muitas cores

Apenas o branco

Me lembrando d’amores.


Caroline Mendes

imagem retirada do site: aqui




sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Pintura - Caroline Mendes

Pintura

 

Pintei um sol negro,

Um céu vermelho.

Senti um desvelo:

Em tinta meu dedo.

 

As cores no papel,

O desenho se formando:

Um barco afundando

E o vermelho no céu.

 

O mar, a se mover.

E também um cachorro

Que, numa pincelada,

Nasceu sem querer.

 

Pintei um morro

Atrás do mar

Verde ele era

E parei de pintar.


Caroline Mendes






Dora - Caroline Mendes

Dora


Dora, em sua tristeza,

Não sabia o que fazer

Tamanha era sua dor

Por não saber viver.

 

Chegou-se junto ao precipício

No outro lado, apenas mar.

Queria um novo início,

Queria também voar.

 

Pensou, e como pensou!

Sua idéia não mudou.

Seu corpo tocou o céu,

Seu corpo desceu ao mar.


Caroline Mendes


"La Memoire", por Réne Magritte.





quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Papel - Caroline Mendes

Papel

 

Eu tenho um papel em branco

E não sei o que fazer.

Será que amasso, jogo fora?

Ou faço uma pintura, com prazer?

 

Posso fazer uma dobradura

E criar algo novo

Sei que dá um trabalho,

Mas quando pronto, é um gosto!

 

Posso escrever, deixar marcas

Que poderão ficar velhas.

(Até viver quando eu morta estiver)

Talvez seja uma boa idéia.

 

Mas são tantas opções

Que fiquei insegura

Farei de tudo um pouco

Antes que eu morra na brancura!


Caroline Mendes








Ao prazer - Caroline Mendes

Ao prazer

 

Tu és um sentimento banalizado

Que, associado a coisas ruins

Torna-se dispensável

E até mesmo rebaixado.

 

Mas eu usufruo de ti

E assim tenho dias bons

Não me envergonho de sorrir

Ter-te me é um dom.

 

Eu apenas sinto pena

Daqueles que esquecem de ti.

E vivem, sem viver

Porque nunca tiveram a ti.


Caroline Mendes


quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A velhinha - Caroline Mendes

A velhinha

 

Para cima, para baixo,

A agulha vai levando

A linha, e transformando

Um novelo em toalha.

 

Enquanto isso, a velhinha

Lentamente faz

Seu trabalho, tão sem paz,

Chora e ri, suspira.

 

Está cansada da velhice

Já não tem mais forças

Tem saudades da meninice,

 

Não é mais uma moça!

Deixa a agulha cair,

E jaz ali, sem forças.


Caroline Mendes


Pintura de Van Gogh, 'An Old Woman from Arles', 1888




terça-feira, 1 de setembro de 2009

Quebra Cabeça - Caroline Mendes

Quebra cabeça

I

O meu quebra cabeça
Veio com um defeito
Sempre falta uma peça,
Nunca há jeito!

Se some a peça do céu,
No outro dia, falta a do mar.
Ou a do carrossel...
Não há como terminar!

E a peça que desaparece
Quando acho, outra se perde
E assim o jogo permanece

Sempre inacabado
Mas é o único que tenho,
Vou montando bem calado.

II

Eu não posso ignorar
Quando isto me acontece:
As peças movem-se, loucas.
E vão para onde bem querem.

Sei que posso controlá-las
Mas às vezes é difícil.
Penso em desistir
E guardar todas elas.

Mas o pior é quando
Tudo parece completo
E é então que vejo
Que há um erro no projeto!

III

Mas afinal de contas
Estou sendo pessimista
Pois há de ponta a ponta
Peças entrelaçadas, amigas.

É preciso saber aceitar
Que apareçam as lacunas
E também saber amar
As peças que já estão juntas.


Caroline Mendes

Dodô - Caroline Mendes

Dodô

Minha querida ave
Tu não me conheces,
Pois que já morrestes
Nas mãos dos portugueses.

És o Dodô, que sem voo
Vivia a festejar.
Não tinha inimigos
Ou com quem brigar.

De paz, foram muitos anos
Que não havia como enfrentar
Os perigos que então vieram:

Tu não soubeste como lutar!
Tua vida foi tirada
E agora bico e ossos

São sua herança guardada!


Desenho de John Tenniel, ilustrador do livro "Alice no país das maravilhas".

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Uma frase...

"Todo homem é incendiário aos vinte anos e bombeiro aos quarenta".

Retirado do livro "O Encontro Marcado", escrito por Fernando Sabino.

sábado, 4 de julho de 2009

Estações - Caroline Mendes

Estações

As flores de setembro
Desabrocham num instante
Crescem em ritmo constante
Até a morte, em dezembro!

É a primavera da vida
Que passa tão depressa.
Tão logo chega - querida,
Vai-se embora - com pressa.

É esta a fase encantada
Que nada espera; tudo passa.
E quando então, vai-se embora,
Percebemos que passou a hora:

De fazer escolhas, encontros,
Amores e até desencontros.
De viver, sonhar, crescer,
E também endoidecer!

Mas enfim vem o verão.
Flores murcham, e em vão
Tentam acordar do sono,
Que vem com o outono.

- Que é enterrado junto,
No inverno, com a neve
Num lugar bem escuro,
Sem luz, fogo e febre.

Caroline Mendes

domingo, 28 de junho de 2009

O asno e a carga de sal - Esopo

O asno e a carga de sal

Um asno carregado de sal atravessava um rio. Um passo em falso e ei-lo dentro da água. O sal então derreteu e o asno se levantou mais leve. Ficou todo feliz. Um pouco depois, estando carregado de esponja às margens do mesmo rio, pensou que se caísse de novo ficaria mais leve e caiu de propósito nas águas. O que aconteceu? As esponjas ficaram encharcadas e, impossibilitado de se erguer, o asno morreu afogado.

Algumas pessoas são vítimas de suas próprias artimanhas.


Esopo

terça-feira, 23 de junho de 2009

Aula de Biologia

Aula de Biologia

Ainda me lembro daquela tarde chuvosa. Estávamos nós, simples estudantes, tentando absorver todo aquele conteúdo que nos era passado naquela aula de biologia. Algum aluno propôs que visitássemos o laboratório de química, lá tinham órgãos preservados que poderiam nos ajudar a compreender melhor sobre fisiologia humana.

O professor concordou com a ideia, e foi buscar a chave do laboratório. Nós entramos e logo fomos vendo o que havia naqueles vidros cheios de formol. Me lembro de um que havia um feto humano, bem pequeno. Pelo tamanho, disse o professor, deveria ter poucas semanas.

O professor calçou as luvas e abriu o vidro em que estava contido um cérebro humano. Este estava cortado transversalmente. O professor explicou suas partes e algumas funções. Depois o professor fez o mesmo com um coração e um estômago. Nós estávamos compenetrados no assunto, era tudo muito interessante.

Finalmente, o professor escolheu nos mostrar os rins. Ele deixou um de lado e nos apresentou outro. Mas, de repente, o rim deslizou na mão do professor e acabou por cair no chão. Ficamos naquela tensão e logo o professor salvou o órgão fugido. Todos começaram a rir.

Isso faz muitos anos, mas agora que me lembrei desse dia, acabei refletindo uma coisa. Aquele rim era de alguém. Como essa pessoa se sentiria se soubesse que estavam brincando com o rim dela? Bem, o que ela acharia eu não sei. Mas se o rim fosse meu, eu não gostaria.

Caroline Mendes.



quarta-feira, 10 de junho de 2009

Amor matemático - Autor Desconhecido

Amor matemático

Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.


Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base…
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo ortogonal, seios esferóides.


Fez da sua
Uma vida
Paralela à dela.
Até que se encontraram
No Infinito.


“Quem és tu?” indagou ele
Com ânsia radical.
“Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode chamar-me Hipotenusa.”


E de falarem descobriram que eram
O que, em aritmética, corresponde
A alma irmãs
Primos-entre-si.


E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz.
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Rectas, curvas, círculos e linhas sinusoidais.


Escandalizaram os ortodoxos
das fórmulas euclidianas
E os exegetas do Universo Finito.


Romperam convenções newtonianas
e pitagóricas.
E, enfim, resolveram casar-se.
Constituir um lar.
Mais que um lar.
Uma Perpendicular.


Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e
diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.


E casaram-se e tiveram
uma secante e três cones
Muito engraçadinhos.
E foram felizes
Até àquele dia
Em que tudo, afinal,
se torna monotonia.


Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum…
Frequentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.


Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.


Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo.
Uma Unidade.
Era o Triângulo,
chamado amoroso.
E desse problema ela era a fracção
Mais ordinária.


Mas foi então, que Einstein descobriu a Relatividade.
E tudo que era expúrio passou a ser Moralidade
Como aliás, em qualquer Sociedade.

Autor desconhecido

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Sem Inspiração - Caroline Mendes

Sem inspiração
.
Meus versos estão fracos,
Me falta inspiração.
Dói-me como o diabo
Escrever tal confissão.
.
Caroline Mendes